17 de agosto de 2011

As Amibas

Na sua definição mais prosaica, a Amiba é um protozoário do filo rizópodes, cujos elementos têm a possibilidade de emitir projecções corporais denominadas pseudópodes que são precisamente utilizados para a sua deslocação e alimentação. Mas a característica mais interessante destes pseudópodes será talvez o facto de provocarem uma constante alteração da morfologia do corpo deste organismo.

Esta amiba – a mais conhecida é a Proteus – é voraz mas inócua. Conhecemo-la, sabemos onde está, mesmo com esta sua capacidade de alterar a morfologia do seu corpo. Mas há outras amibas, por esta mesma capacidade de alteração morfológica (que neste caso passaremos a denominar de alteração ideológica) tem uma capacidade inata de se adaptarem às mudanças sociais e políticas, de ciclos, de regimes, perpetuando-se na paratização dos sistemas. Estas amibas, como as suas congéneres protozoárias dão-se bem nos ambientes pantanosos, no lodo, nos registos de incerteza, fazendo-se valer dessa extraordinária adaptabilidade morfológico-ideológica.

Mas, contrariamente ao que se pode pensar a sua génese não é parasitária. Elas não invadiram o sistema com uma pura e simples lógica de destruição ou perpetuação do seu ciclo de vida. Elas fazem parte do próprio sistema. Mais do que orgânica, a questão é cultural. Os sistemas perpetuam-se através delas e vice-versa.

É nesta lógica que se pode (e deve) entender a razoabilidade de algumas intenções que Passos Coelho tem expressado publicamente com de exigir uma avaliação de todas as nomeações feitas pelo antigo governo. Não se trata de avaliar para expurgar mas sim para perceber a lógica do sistema, de como ele permite absorver esta extraordinária quantidade de amibas. Até porque o próprio Primeiro-ministro sabe que o seu aparelho também tem, ao longo dos anos, sido responsável pelo alimentar deste incontrolável status infeccioso.

Portugal é hoje uma amiba gigante, Na política, na Administração Pública, Nas Forças Armadas (veja-se, por exemplo, o que se passou com a nomeação do mais recente Chefe de Estado do ramo), na Polícia, na Magistratura, onde quer que se vá.

Passos Coelho parece estar na loca certa. A mudança só pode ser geracional.
Crônicas da Frontline

15 de junho de 2011

A Peste

Aos poucos o país e os portugueses vão-se libertando do manto pestilento que caiu sobre terras lusas nos últimos meses. E esta pestilência em nada respeita à alternância política quer o Portugal conheceu no passado dia 6 de Junho. Quem saiu, quem entrou, forma e são portugueses e, pese embora a avaliação política que se faça de quem nos governou nestes últimos seis anos, ninguém porá em causa o seu sentido de Estado ou defesa intransigente dos valores e da soberania nacional.

A peste a que me refiro veio, aliás como sempre, do exterior. Ventos fétidos daqueles que quiseram precisamente interferir nessa soberania, não por força ou imposição da sua capacidade de auxiliar, mas sim pela determinação que colocaram em tornar esse auxílio numa forma de subjugação. Aí, Sócrates falhou e este será porventura o maior desfio que Passos Coelho terá de enfrentar.

A Alemanha, com a senhora Merkel à cabeça, foi a mandatária daquilo que seria uma forma ensaiada de “colonialismo de modelos sistémicos de governação” carimbados em Berlim e destinados a salvar toda uma estratégia de política federalista ensaiada no seio de uma União Europeia que cada vez se afasta mais desse mesmo conceito de união e se vê remetida para as formas primárias da sua génese, de aliança económica, essa sim com provas dadas. E à cabeça do movimento surge um estranho personagem chamado Durão Barroso, cada vez carregando mais o semblante de carrasco do seu próprio país.

Esta pestilência, aparentemente desgovernada, mas que foi cirurgicamente orquestrada e governada do ponto de vista comunicacional, deixou-nos à beira da catástrofe pela exacerbação de vulnerabilidade com que se tentou mascarar Portugal, deixando o país à mercê dos predadores, muitos deles sentados no imaculado sistema financeiro alemão.

Como escreveu Camus no seu romance A Peste, “…ao ouvir os gritos de alegria que subiam da cidade, Rieux lembrava-se que esta alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis, na roupa, espera pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. E sabia também que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz”.

Este será talvez o grande ensinamento a retirar para o futuro.

PS: A fechar, a eurodeputada Ana Gomes marcou mais um episódio triste da jovem democracia portuguesa, aliás como já o tinha tentado com o Presidente da República, Cavaco Silva. É a personificação de uma geração política que já não faz falta ao País.
Crônicas da Frontline

5 de maio de 2011

Os cabeças de Coco

Será que o Partido Socialista (ou o PM) ainda não percebeu que a lógica destrutiva protagonizada por Silva Pereira, José Lello (o do foleiro) Francisco Assis (que tem vindo a revelar uma dupla personalidade conforme o contexto da intervenção ou de debate, não se percebendo ainda quando prevalece a doutrina ou o frete) e Vitalino Canas, entre outros, já foi desconstruída  pela generalidade dos portugueses, percebendo estes agora claramente os seus propósitos?

PS: E a juntar aos "cabeças de coco" (lembram-se do barulho oco que fazem quando batem uns nos outros)  ainda aparece agora uma personagem irreal que dá pelo nome de Basílio Horta?

27 de abril de 2011

Incontornável mediatismo

Santana Lopes e Carrilho, cá um a seu jeito puseram o dedo na ferida. Atenda-se ao que PSL diz hoje no Económico quando compara Sócrates a Tony Carreira (http://economico.sapo.pt/noticias/este-primeiroministro-e-como-o-tony-carreira_116798.html) e ao que refere Carrilho quando classifica a entrevista do Primeiro-ministro à TVI24 de "pura propaganda política" (http://economico.sapo.pt/noticias/socrates-esta-na-pura-propaganda-politica_116800.html).

Mas Carrilho vai mais longe e mais fundo quando afirma que "a situação só demonstra neste momento que "a eficácia da campanha de comunicação do PS de Sócrates só tem equivalente na ineficácia e na desorientação do PSD" que "cai também em todas as armadilhas".

Isto é o que o PSD (incompreensivelmente) ainda não percebeu. Ineficácia e desorientação numa total ausência estratégica no plano da Comunicação. O PSD continua refém de uma actuação táctica (e nós sabemos porquê).  Passos Coelho está esquecido que em Política a comunicação obedece a três regras simples: Estratégia (que sustente a actuação a nível táctico) Iniciativa (que roube o espaço de intervenção) e uma clara definição dos targets de comunicação (que permita adequar conteúdos, formatar referenciais,  adequar contextos e estar apto a enfrentar todas as circunstâncias). É básico. E um último conselho: falar para quem importa, os eleitores, o povo, os portugueses.

Para inglês ver... lamentável

Quando o País precisa de mobilizar a sociedade civil e alguns portugueses começam finalmente a perceber que, para além da Educação e da extinção das elites, este é um dos nossos mais graves problemas estruturais, aparecem umas criaturas sedentes de um novo protagonismo com iniciativas como apresentar uma queixa-crime contra o Primeiro-ministro porque deu tolerância na quinta-feira à tarde anterior à Páscoa. Veja-se a notícia do Público: http://www.publico.pt/Política/advogado-apresentou-denuncia-no-mp-contra-socrates-por-causa-da-tolerancia-de-ponto_1491550

Há que separar claramente os planos de actuação e não andar aqui a ensaiar números mediáticos que nada mais revelam do que a mediocridade de pensamento mascarada com "uma grande dimensão de responsabilidade ética" com que estão questões são encaradas.

22 de março de 2011

Bruxelas recua e deixa PEC em aberto

Ao contrário do que se possa pensar parece haver algumas cabeças esclarecidas em Bruxelas. Este recuo não é  para dar folga a Sócrates. É sim abrir a porta para a entrada de um novo Governo em Portugal, com legitimidade política e social.
Este precedente abre também um horizonte de preocupação para a Alemanha que, cada vez mais, vai ver a sua posição contestada, a começar no seio da própria União Europeia.
É interessante constatar que esta declaração é feita por Amadeu Altafaj, o porta voz do comissário Olli Rehn, que ontem tinha concordado com o presidente do Eurogrupo, Jean Claude Juncker, ao "não ver qualquer razão que pudesse fazer com que mudássemos o programa" português, conforme vem reproduzido na imprensa, nomeadamente no Económico.

18 de março de 2011

O Discurso (do Rei) que o PSD não tem

As últimas semanas têm sido pródigas no Jogo e na Comunicação Política. PS e PSD têm-se esgrimido no espaço mediático de uma forma abrupta e muitas vezes (mais os socialistas) de uma forma inconsequente. Mas esqueçamos a substância e olhemos para com algum cuidado para a forma, para quem são os interlocutores válidos, principalmente do lado do PSD, à luz da eficácia da Comunicação. Para quem já viu o Discurso do Rei o mote está dado e o que o PSD de hoje reflecte é uma total ausência estratégica de enquadramento de Media Training.
Se retiramos Passos Coelho deste "bolo" - um líder que tem revelado um amadurecimento político e uma capacidade mediática que poucos seriam capazes de lhe reconhecer alguns meses atrás, mas que construiu por mérito próprio - os dois principais pivots mediáticos do PSD têm-se revelado confrangedores neste domínio. Menos Miguel Relvas, com uma prestação sofrível , mais Miguel Macedo, com uma prestação má ou mesmo muito má.
Na realidade, quando um Partido Político (ou mesmo uma organização) esgota o seu Media Training na contratação de um jornalista de televisão, os resultados estão à vista. A generalidade das organizações ainda não assimilaram que Media Training é muito mais do que um simples conjunto de técnicas dirigidas ao pequeno ecran. Aliás, o peso deste factor até é muitas vezes desprezível em relação a outros. Outro erro comum é também quando se deixa a avaliação dessa mesma avaliação ao critério destes mesmos jornalistas televisivos, cuja missão deve ser desempenhar um papel técnico focalizado.
O PSD revela actualmente esta fragilidade. O resultado está à vista. Se não fosse Pedro Passos Coelho seria mesmo desastroso.

10 de março de 2011

Finalmente... um Presidente


Sobre Cavaco II está tudo dito. Finalmente temos um presidente. Aliás, Pedro Santos Guerreiro deixa no Jornal de Negócios uma notável leitura sobre esta matéria no seu texto "Cavaco e uma emoção de censura".

Mas há uma passagem do discurso de posse do Presidente que assume uma relevância extraordinária quando afirma que "muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático".
Esta verdade escondida não se aplica apenas aos políticos e será talvez o maior flagelo que as nossa sociedades vão enfrentar no século XXI. Recordo aqui apenas um dos textos em que me debrucei sobre o assunto, o Engodo.

Curioso também o registo (Comunicacional) de pânico mal ensaiado do Partido Socialista: Francisco Assis, Capoulas Santos, Ana Gomes, Carlos César.

Curiosa também a cobertura mediática da imprensa espanhola a ensaiar um registo (igualmente Comunicacional) de pânico com o que aconteceu em Portugal. Prova que também a fórmula Zapatero está esgotada.



4 de março de 2011

Jornal Público - Uma decisão de louvar

Li hoje no Público que a partir de amanhã, 5 de Março, dia em que o jornal celebra o seu 21.º aniversário, todos os comentários dos leitores do Público Online vão passar a ser lidos antes de serem publicados.
UMA DECISÃO DE LOUVAR.
Já em Stembro de 2009 escrevi sobre esta matéria na Revista Frontline e num post aqui no blog:
"Vem isto a propósito de, dada vez mais, me confrontar com um sentimento de estupefacção ao ler os comentários que são produzidos e colados em rodapé nas notícias que correm nos vários media online, com destaque para o Sapo e o Público, que são duas das minhas visitas obrigatórias.
Aliás, confesso que ainda gostava de conhecer quem teve esta infeliz ideia de “inventar” tal sistema, talvez convencido que seria um contributo significativo para uma almejada democracia (mais) participativa ou para uma menor “asfixia democrática” como hoje é uso dizer-se. Tremendo erro".

Espero agora que os outros tenham a coragem de decidir neste sentido.

10 de fevereiro de 2011

O Facebook voltou atrás?

A Rede também tem um lado preverso. Andamos é todos demasiados encantados com os seus benefícios que acabamos por descurar a guarda. CUIDADO. Vejam esta notícia no Público:

http://www.publico.pt/Tecnologia/facebook-imagem-de-mulher-a-amamentar-deu-expulsao-seguida-de-readmissao_1479617

Eu também tenho Facebook. Será que me vão expulsar por expressar esta opinião?