3 de Julho de 2009

De vergonha em vergonha...


Mais vergonhoso que o acto "solitário" do Ministro da Economia é a vergonha da disputa entre PCP e BE na reivindicação dos destinatários do referido acto, como forma de um ensaio de protagonismo sobre quem seria responsável pela sua demissão.
Afinal, talvez o próprio PM tenha razão quando situa a acção política à sua esquerda numa redutora luta de protagonismo para conquista eleitoral caracterizada por um confrangedor vazio de ideias e propostas.
Mas mais preocupante é quando, mesmo assim, essa mesma esquerda consegue alguma expressão eleitoral.

15 de Junho de 2009

Derrubar Colunas


Na mais linear tradição maçónica quando uma “loja”, a sua estrutura base de agregação, se sente incapaz de continuar a desempenhar a sua função, os seus elementos mais não fazem do que “derrubar colunas”. É um acto simbólico, cujo devir reflectirá certamente um fim ou um novo princípio, um novo começar. É um acto simbólico quando se entende que derrubar colunas significa que os pilares básicos que sustentam um fundamento organizacional são incapazes de cumprir a sua função.
Não somos necessariamente todos maçons, mas se apreendermos a profundidade da sua analogia, também compreendemos que Portugal está cada vez mais perto do colapso. Não interessa se, na realidade, a nossa sociedade está ou não está a caminhar para a ruptura. Interessa sim a forma como percepcionamos o actual momento em que vivemos e como diria o povo: “à mulher de César não basta sê-lo, há que parecê-lo”.
É verdade que a actual dinâmica de uma sociedade conduzida pela voragem comunicacional nos leva a perder o controlo sobre o que verdadeiramente acontece versus aquilo que nos é comunicado como tendo acontecido. Mas, pese embora algum exagero de intoxicação que as televisões nos provoquem e mesmo até alguma distorção factual por força de interpretações que nos são induzidas, há realidades que são imutáveis.
Uma dessas realidades é o estado de verdadeiro colapso do aparelho da Justiça em Portugal. O Pilar, na acepção maçónica, ruiu completamente e o último golpe do pedreiro foi o caso Alexandra. Para os portugueses já não está em causa se há ou não igual acesso à Justiça, se há uma Justiça para ricos e outra para pobres ou se a Justiça é demasiado lenta no nosso país.
O que os portugueses finalmente perceberam com o caso Alexandra é que o aparelho da justiça foi invadido por uma massa amorfa, mal formada, mal preparada, que esconde todas estas deficiências e fragilidades numa aplicação estrita da norma jurídica, da lei, de um quadro normativo completamente desenquadrado da realidade.
Mas a falha não está só na complexidade da realidade jurídica em Portugal. É muito mais profunda. Está no indivíduo, na pessoa, no agente, naquele que exerce autoridade. Se o pilar da Justiça está a ruir é porque dois outros pilares fundamentais já colapsaram: o da Família e o da Educação.
A revolução das elites (das poucas que ainda restam neste país) já não será suficiente. Este terá de ser o tempo da revolução “dos homens bons”. Pela força da não resignação contra esta percepção generalizada de um País à beira da ruptura que se instalou em todos nós. E não basta um juiz vir dizer que se sente incomodado com o destino que ditou à pequena Alexandra para que todos nos sintamos aliviados e esperançados que este tenha apenas sido mais um episódio isolado e exageradamente explorado pela comunicação social.
Quantos lamentos ainda teremos de ouvir dos juízes em Portugal antes de percebermos que as coisas estão efectivamente mal?

Crônicas da Frontline

13 de Junho de 2009

A Grande Lata


A Grande Lata. A ideia traz-me, no imediato, duas coisa distintas à memória. Uma é uma pequena loja de tintas (onde acho que o conceito foi bem aplicado) na Charneca da Caparica onde costumo comprar alguns materiais. São gente boa e honesta. Outra, mais recente, as declarações de João Rendeiro, ex-qualquer coisa no BPP para não dizer o responsável máximo pelo colapso da instituição, a vir criticar o plano apresentado pelo Governo.

Já não sei se é preciso ter lata, uma grande lata ou não ter vergonha. Mas o que prevalece para a maioria dos portugueses é o sentimento de impunidade com que este senhor continua arrogantemente a viver neste País. Não se trata de "ferir" a presunção de inocência, mas convenhamos que há limites para tudo.

15 de Maio de 2009

GPP - Global Positioning Politics


Todos os dias as maravilhas da técnica, os gadjets, uma parfenália de tecnologias rouba parte do nosso quotidiano e intrusa-se na nossa vida. Se alguns devices, como é uso agora ouvir-se são, de facto, úteis, muita coisa existe que é pura demagogia utilitária ou altiva exacerbação do ego.
Uma discussão recente, sobre a qual li algumas posições em confronto, prende-se com o Child Locater, nada mais do que um vulgar GPS aplicado a crianças. Os argumentos que tenho lido, quer contra, quer a favor, da aplicação do conceito merecem-me alguma reflexão e sou obrigado a concordar que existe validade argumental de ambos os lados desta barricada. Sensato será, talvez, deixar prevalecer o livre arbítrio de cada pai, mãe, encarregado de educação, desde que possuam toda a necessária informação para que possam avaliar, em consciência, a opção a tomar.
Mas quando corria em pensamento esta problemática interroguei-me sobre a razão pela qual este tão propagado avanço tecno-civilizacional, se é que o termo existe, nunca nos brindou, por exemplo, com um GPP – Global Positioning Politics.
Na prática, nada mais do que um GPS desenhado sobre a filosofia de Child Locater, de uso obrigatório e que nos permitisse ter uma noção exacta, online e em tempo real, sobre o que os nossos políticos e outros agentes com relevância no curso da vida da Nação, andam a fazer.
Benefícios que resultavam no imediato da aplicação do sistema:
A responsabilidade política nominal (e não partidária na lógica da diluição das responsabilidades individuais) passava a ter um peso significativo na eleição;
O nível de corrupção baixava drasticamente;
O cidadão comum começava a perceber o que verdadeiramente está por detrás da “guerra de fachada” de que a Assembleia da República muitas vezes é palco;
E mais não preciso de dizer. Cada um encontrará inputs para validar esta opção.
Quanto às questões éticas e à protecção da, liberdade individual seria uma discussão a remeter para segundo plano, talvez até irrelevante porque ética neste País é hoje já coisa rara, quase dos manuais de história, valores de outrora que nortearam os nossos avós e ainda os nossos pais…
Ou então os políticos que tivessem autorização para desligar o GPP quando chegassem a casa. O que também muito contribuiria para o bem-estar moral da Nação.

Crônicas da Frontline

13 de Maio de 2009

Os JCEP do JD

Para começar devo uma desculpa ao JD por só agora ter olhado com mais atenção para o seu projecto. A minha é mais uma opinião, válida ou não, ou outros decidirão. Mas, na realidade, afazeres profissionais têm-me afastado um pouco, não só do meu blog, mas também deste nossa área da Comunicação.
Quanto ao que interessa, acho que é do interesse de todos nós que este projecto vá À FRENTE. Para mim apenas uma questão sensível. Deve ser um projecto cimentado numa plataforma de pessoas, congregando, então sim, consultoras (não gosto do termo agências) empresas, universidades, etc.

Um abraço ao João Duarte

2 de Maio de 2009

Perestroika adiada


Podia passar por mais um pequeno episódio isolado de "fervor político", mas não. Se há alguma ilação a tirar sobre o que se passou com Vital Moreira nas comemorações do 1º de Maio é que o Partido Comunista Português ainda não está preparado para viver em DEMOCRACIA. Aliás não deixa de ser irónico quando se assinalam os 35 anos do 25 de Abril, da suprema conquista da liberdade em Portugal e se percebe que a liberdade de escolha, de credo, não faz parte da doutrina comunista. Essa mesma liberdade que não é espelhada na representatividade da CGTP. Cada vezes é mais visível o controlo de desespero que o PCP tenta manter sobre a central sindical como ficou bem claro que Carvalho da Silva (na sua infeliz declaração culpando, mais uma vez a crise) é apenas uma "caixa de ressonância" desse mesmo partido político. Ninguém ganha com este tipo de episódios, mas há quem perca muito. E perdem sobretudo os milhares de trabalhadores que se julgam representados numa central sindical que pugne pela defesa dos seus interesses. Afinal, parece que outros valores de natureza político-partidária mais alto se levantam.

A grande conquista do 25 de Abril afinal não está realizada: a maturidade cultural de um povo que se reflicta na sua vivência política e o afastamento de práticas e pessoas que perfilham correntes de pensamento incompatíveis com essa mesma democracia. A ser assim é certo que a actual CGTP ficaria reduzida a uma expressão sem significado e o PCP não teria mais espaço para adiar a sua Perestroika.

12 de Abril de 2009

Uma pérola da Comunicação Política


O meu querido amigo Carlos de Sousa - uma das pessoas que mais prezo pela sua vasta experiência nesta área da Comunicão - perguntava-me outro dia, quando me enviou esta pérola da comunicação política, que aqui reproduzo, se se trataria de "Torreirismo político ou demência"?

Convictamente as duas únicas certezas que tenho é que se este senhor ganhar o que quer que seja temos de rever muita da nossa doutrina em termos de comunicação política e temos de fazer um shutdown a algumas zonas de país. Como dizia o senhor meu Pai "A ignorância é mãe de todos os crimes" e o seguidismo de doutrina primário basedo no indivíduo sem a catalização da razão é comum nas sociedades de grande défice culural. Está tudo dito...

11 de Março de 2009

Por um punhado de assessores...


“O meu grande problema enquanto ministro das Finanças foi não me ter rodeado de assessores de imprensa que pudessem valorizar o meu trabalho junto da opinião pública”.
Lapidar a afirmação e, ao mesmo tempo, tão actual. Só que, na realidade, foi proferida há 19 anos atrás, mais precisamente a 15 de Agosto de 1990, por Miguel Cadilhe em entrevista ao semanário Tempo.
Hoje, uma afirmação pública desta natureza feita por um político ou uma outra qualquer destacada figura da nossa sociedade seria um crime lesa Pátria.
Os detractores ergueriam as suas vozes clamando a infâmia daqueles que se rodeiam de agentes de Propaganda, como o fazem amiúde nos dias que correm contra assessores e agências de comunicação. Outros, muitos dos que pululam por esta área nobre, correriam a vender serviços formatados, fosse de assessoria, fosse de gestão da comunicação ou da reputação.
O óbvio resulta do facto da fronteira ética ser naturalmente ténue nesta área de prática, mas o mesmo poderíamos dizer, por exemplo, de muito do jornalismo que se pratica nos dias de hoje. Porquê? Porque a diferença continua a residir na dimensão do individual, mas, neste caso, com uma dupla face: atinge tanto os assessores (ou as agências) como os próprios assessorados (pessoas ou organizações). Por isso, a afirmação de Miguel Cadilhe é ainda mais lapidar quando define o trabalho do assessor como factor crítico para valorizar o seu trabalho junto da opinião pública. Porque esta correcta definição de papéis é fundamental no estruturar da dimensão ética na esfera da Comunicação. Ainda recentemente abordei o problema das relações funcionais entre os diversos agentes e protagonistas deste universo e um olhar mais atento e crítico no que respeita a instituições, responsáveis e consultores de comunicação pode revelar-nos um panorama desencorajador: salvo algumas excepções, todos interpretam papéis que não lhes estão destinados, corrompendo a essência da sua actuação, porque, na voragem actual de que tudo é comunicável, o nível mais básico da decisão em comunicação – o que se comunica e não como se comunica – foi deixado ao critério de quem não estava naturalmente preparado para gerir esses domínios. Pior ainda quando a fragmentação de Poder dentro das organizações estilhaça toda a política de comunicação se é que ela muitas vezes existe. E é aqui que muitas das agências e consultores caiem reféns porque preferem defender o negócio do que o rigor da sua actuação e sucumbem à clientocracia, arrastando a sua própria reputação – mas infelizmente também a do sector – numa espiral de consequências incontroláveis. Às vezes a expressão mais adequada parece ser “por um punhado de dólares…” para quem conhece o filme.

PS: Miguel Cadilhe ainda não encontrou os tão necessários assessores pelo que continuamos a ver…
Crônicas da Frontline

5 de Março de 2009

África minha



Nestes últimos dias, os trágicos acontecimentos da Guiné-Bissau têm preenchido muito espaço informativo e merecido também as habituais análises de comentadores. E, neste domínio, mais uma vez nos deparamos com um panorama decepcionante. Uma excepção que sinalizo e recomendo que leiam. O post do José Paulo Fafe - O último guerrilheiro - que, em poucas linhas, traça um retrato fiel de mais um lamentável episódio da política africana.


Conheço bem a realidade africana, embora sejam trilhos que deixei de percorrer com tanta intensidade já lá vão uns 20 anos. Mas a paixão ficou. Tive o privilégio de cruzar o meu caminho com Homens como Sam Nujoma, Savimbi, Desmond Tutu, entre tantos outros, de todos os lados das barreiras, das crenças, das ideologias, dos regimes.


Pergunto onde andavam muitos destes doutos analistas de hoje?

20 de Fevereiro de 2009

Os pecados comunicacionais da Justiça


Foi com redobrado interesse que acompanhei o debate na emissão de hoje do Expresso da Meia Noite, sobretudo no que respeita as relações da Justiça com a Comunicação Social e a total inabilidade que, quer o Ministério Público, quer muitas forças policiais, têm revelado neste domínio. Tudo isto vem agora muito a público sobretudo numa altura em que se assiste a uma tentativa de "mudança de atitude" principalmente por parte do Ministério Público. Essa mudança é fundamental e necessária, mas não da forma como parece estar a ser conduzida, induzindo uma tentativa de protagonismo mal ensaiada. Soa a falso.

Tenho escrito com regularidade sobre esta matéria aqui neste mesmo blogue e no OJE. Muito se fala no problema do segredo de justiça como um factor crítico neste universo de relações, mas esta é apenas uma questão lateral. O que é uma facto é que a total incapacidade e inabilidade das nossas estruturas judiciais e policiais lidarem com a comunicação social resulta de uma complexa questão cultural motivada pelo facto de nunca terem sentido essa necessidade. Porquê? Porque sempre exerceram um controlo "parental" sobre a Comunicação Social em que ditavam as regras do jogo e com isso criaram o clima de promiscuidade com que vivemos até hoje. E sejamos realistas: serviu a todos.

As coisas só começaram verdadeiramente a mudar com o Caso Maddie, quando muitas destas estruturas foram confrontadas com um sistema com o qual não sabiam lidar e com a verdadeira pressão de uma comunicação social (principalmente a britânica) que é incapaz de furar o segredo de justiça mas é implacável no seu exercício de procura de informação.

Aliás, registei com agrado a posição defendida por José Manel Fernandes de que sentia muito mais confortável a viver dentro do sistema britânico de relação da Justiça com a Comunicação Social.

Por tudo isto, algo continua profundamente errado neste país. Para além da Justiça, o mais recente caso em Portugal, o caso Freeport, vai certamente transformar num case study nesta matéria.

Não é só necessária uma profunda mudança cultural em muitos sectores ligados à Justiça em Portugal, mas também de que entreguem a quem sabe matéria que não é da sua estrita competência, como é o caso da Comunicação. Relembro aqui apenas um exemplo que também abordei neste blogue: que sirva de reflexão...